quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Ano novo... de novo...

Estou vivendo um "anacronismo". Não me sinto em dezembro. Meu ser se nega a acreditar que um ano se passou. Ainda não fechei os ciclos que iniciei, não realizei projetos que sonhei. Não quitei todas as dívidas, não beijei como havia planejado, não conheci quem achava que iria conhecer, não emagreci os quilos programados. Enfim, ainda não consegui dar um OK em todos os itens da grande lista do(s) ano(s) passado(s).
Fiz outras coisas, é verdade, não planejadas nem programadas. Algumas ótimas, outras nem tanto. Umas traumáticas, outras incríveis, outras decepcionantes irritantes, estressantes... O fato é que andei acumulando listas, postergando reformas, arrastando decisões. Literalmente empurrando coisas com a barriga.
Por outro lado, minha esperança-ansiedade já está na metade de 2012 e na velocidade da luz. Novos projetos, novas perspectivas, mudanças de ares, promessas de viver o que não foi vivido até agora...

Ano novo... Vejo as pessoas festejarem o ano novo efusivamente e me inquieto porque não consigo sentir a mesma profusão de sentimentos no exato momento em que elas sentem isso. Sorrio e até comemoro com elas, de boa. Ajo diplomaticamente (alguém pode sussurrar: hipocritamente) para que as pessoas não se sintam constrangidas com minha estupefação e meu embaraço diante dessas armadilhas/imposições do calendário. Acho que meu ano novo só vai começar mesmo, de fato, no final de janeiro ou em fevereiro. Não sou de me obrigar a fechar ciclos em uma data específica, só porque um calendário assim determinou. Fecho meus ciclos no tempo necessário para isso. No tempo que dou conta. Meu ano emocional, psicológico, astral, simbólico... seja lá o termo mais adequado, não tem 365 dias. Pode ter mais ou menos. [Já vivi um ano em 6 meses, pois foi tão intenso, e me desgastou de tal forma, que preferi deixá-lo para trás. E já tive um ano que deve ter durado uns 18 meses...]

Aprendi a levar a vida no meu tempo, vivenciando um processo de mudança após o outro. Para mim, a virada do dia 31 de dezembro para 1 de janeiro não tem nada de mais. De verdade. Mas quando digo isso para algumas pessoas, lá vem espanto, sermão, conceito, conselho, blá, blá, blá... [Pô! Cada um acredita no que quer, certo? Por que não posso ter meu jeito diferente de ser e pensar?]
Já passei ano novo em casa, sozinha, muito tranquila e sossegada, numa boa, e já passei no meio da maior multidão (muvuca total), no mato, na praia, voando, de jeitos diferentes. Senti cada um deles de uma forma única e pessoal. Mas tenho de admitir que esse ano de 2011 está sendo muito estranho. Cronologicamente parece ter passado muito depressa; emocionalmente, porém, foi tão carregado que me esgotou como se eu tivesse acumulado decepções e tristezas de 3 anos em 1.

Creio que nessa virada de 31/12 para 1/1, vou conseguir colocar - simbolicamente - um ponto-final em 2011. Pretendo fazer uma faxina na alma. E a partir daí quero enxotar da minha vida quem e o que não merece fazer parte dela. Dizem que segundo o calendário Maia 2012 marca o fim do mundo (fica em aberto o que significa "fim do mundo" pra cada um...).
No que depender de mim, pretendo que seja o fim de um mundo de coisas ruins, amizades interesseiras, projetos desgastantes... Que seja o fim de anos e anos de escolhas equivocadas para que eu possa abrir espaço para novas escolhas - menos equivocadas, mais sábias e maduras.
Estou começando a me reinventar... de novo!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

CANSAÇO DE GENTE

A origem
Aprendi essa expressão com um amigo queridíssimo, grande escritor e roteirista de Brasília: José Ricardo Moreira. Ele um dia me disse estar sentindo um certo "cansaço de gente" [ocasionado por um acúmulo de chateações e frustrações provocadas por terceiros].
Roubei descaradamente a expressão que ele criou e atribuí níveis a ela, para possibilitar uma classificação de "perigo potencial". Uso sempre, e aviso em que nível estou para que amigos e familiares possam se organizar e agir de acordo com suas consciências: ou saem de perto ou me dão um abraço, uma palavra amiga, um mimo ou até mesmo uma taça de vinho!
Crédito da imagem: br.freepik.com

A classificação
Existem pessoas (parentes, conhecidos, "amigos", colegas de trabalho, cônjuges, filhos, estranhos...) que provocam em nós desânimo, irritação ou fúria, dependendo de suas palavras e atitudes. Quando ficamos "de saco cheio" da raça humana, seja por conta de acúmulo de sapos engolidos, injustiças vistas e sofridas ou de problemas que os outros nos causam, vem o cansaço de gente. Há 5 níveis para esse cansaço que são um termômetro do quanto estamos a ponto de cometer um crime:
  • Cansaço de gente nível I: frustração virando irritação...
  • Cansaço de gente nível II: é melhor fingir que não ouvi o que essa pessoa acabou de dizer (ou fingir que não vi o que essa pessoa fez), senão terei de agir...
  • Cansaço de gente nível III: É melhor você(s) sair(em) da minha frente.... Não falo mais, só grito. Ainda consigo controlar meus impulsos.
  • Cansaço de gente nível IV: Não ouço mais nada. Não vejo mais nada. Minhas mãos tremem. Meu cérebro está fervendo e quero acabar com a raça de quem me torrou a paciência (é melhor esconder as facas e os objetos pontiagudos). Só falta aquela gotinha pra transbordar o copo.
  • Cansaço de gente nível V: O copo transbordou! A cobra vai fumar, o bicho vai pegar... Tropa de elite é pouco... Sai da minha frente agora mesmo, senão vai sobrar pra você também! [Esse nível predispõe a mariticídios (matar o marido), uroxicídios (matar a esposa), fraticídios (matar os irmãos) e outros "cídios"...
Um filme que ilustra muito bem esse evento, transtorno, distúrbio (chamem como preferirem) é Um dia de fúria, com Michael Douglas.
Salvo casos de francoatiradores que demonstram desequilíbrios patológicos, as pessoas acometidas de Cansaço de gente são normais, pacatas, mães e pais de família que, levadas ao limite devido a não conseguirem mais engolir as provocações, burradas, sandices, estripulias, ações egoístas etc., etc., etc. de seus pares (ou ímpares), podem surtar e fazer o que jamais haviam pensado em fazer...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Fazendo arte

Estou fazendo fisioterapia para o pulso e para a coluna lombar. Na clínica, 80% do público é de idosos e o restante é de pessoas mais jovens que se acidentaram ou que têm má-postura, tiveram lesões por exercícios repetitivos, etc. (Por enquanto, estou nesses 20%)
Numa das sessões, estava com os eletrodos de ondas curtas nas costas, mas achei que os "choquinhos" estavam muito fracos e decidi aumentar a potência do aparelho por conta própria, já que o fisioterapeuta estava super ocupado atendendo uma senhorinha. Girei o botãozinho, mas não senti muita diferença. Então, girei os dois botões do aparelho, achando que era necessário acioná-los ao mesmo tempo. Ninguém me viu fazendo isso. (Fui muito ligeira!)
Ao meu lado havia um senhor, lendo. Ele começou a se agitar e a gritar que os choques estavam muito fortes. Só então percebi que havia dois conjuntos de eletrodos saindo do aparelho ao qual eu estava conectada. Um vinha para as minhas costas e o outro ia para o joelho dele.
Ai, ai, ai... Eu havia aumentado a potência dos choques nas minhas costas e também no joelho daquele senhor!!! O fisioterapeuta veio correndo e desligou a máquina. Expliquei o que eu havia feito, pedi mil desculpas e levei uma bronca: "Não mexa nos aparelhos, minha senhora. Chame sempre um profissional para fazer isso!" (Caramba, que mico!). Não foi intencional, juro! Fiquei passada (quase bege). O senhor ficou zangado comigo (e com razão). Na sessão seguinte não quis se sentar perto de mim (puxa, eu prometi que não faria de novo!). Depois o fisioterapeuta me contou que na semana anterior um rapaz havia feito a mesma coisa, mas com uma velhinha bem velhinha, que não reclamou, mas começou a tremer muito por conta dos choques. O rapaz poderia ter matado a senhorinha, se o fisioteraputa não tivesse chegado a tempo.
Aprendi a lição. Mas tive um acesso de riso depois, em casa, ao me lembrar do ocorrido. (Tenho acesso de riso quando fico nervosa).
Fazer fisioterapia já não é muito agradável, se pensarmos que estamos ali levados pela dor, e fica ainda mais difícil quando há um(a) maluco(a) ao nosso lado tentando nos eletrocutar. Affff! Mais um mico pra minha lista (que cresce a cada dia!).

domingo, 4 de dezembro de 2011

Reflexão oportuna para momentos de crise...

Queixei-me a uma amiga religiosa, reclamando de meus dissabores. Ela, acostumada a ver almas afundando no mar da desilusão, mandou o seguinte recado: "Deus aperta, mas não afoga!".

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Namore uma garota que lê

Este texto não é meu, mas gostei muito dele (senti até uma pontinha de inveja!) e compartilho aqui. Acho que vou parodiar o texto e escrever o "Seja amigo(a) de uma garota que lê", ou "Contrate uma garota que lê"... 
Numa época de hipervalorização das aparências, relações superficiais, crise de valores e consumo exacerbado, como a que vivemos, é bom ler alguma coisa que faça a gente refletir um pouco.

Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico
Tradução e adaptação – Gabriela Ventura
"A leitora", de Jean-Honore Fragonard.

"Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.

Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, Cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série "Crepúsculo".

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.

Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao "Gato do Chapéu" [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve."

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Recado da chuva

Compartilho com todos a minha alegria e o meu orgulho por poder fazer parte desse projeto.
O livro "Recado da chuva", que publiquei pela editora Vida e Consciência (e que foi maravilhosamente ilustrado pelo Rogério Coelho), foi selecionado pelo projeto "Lê pra mim" da Fundação Biblioteca Nacional.
O ator David Lucas - que atualmente interpreta o Renê Júnior na novela Fina Estampa, leu a história para as crianças na tarde de sábado (26 de novembro).
A criançada adorou!
Eu estou sorrindo até agora!
Veja aqui as fotos do evento:
http://caras.uol.com.br/noticia/david-lucas-participa-do-projeto-le-pra-mim-no-rio-de-janeiro-fina-estampa#image0

domingo, 20 de novembro de 2011

Voltando...

Depois de quase dois meses sem escrever no blog, volto devagar. Estava envolvida com outras demandas e, principalmente, tentando entender as causas das peças que a vida às vezes nos prega. Foi mesmo um "silêncio de escrita", um silêncio desses que faz a gente achar que não tem mais nada de bom pra dizer, silêncio de olhar pra dentro, questionar e rever rumos e decisões tomadas. Aprendi que a gente toma as decisões que dá conta de tomar, naquele momento; que dá o rumo na vida que dá conta de dar, naquele momento; que fala o que dá conta de falar, naquele momento. Quando o momento passa, é comum achar que a gente cometeu um erro, mas... naquele momento, foi o que a gente deu conta. Pronto!
Tive de me deparar com decisões, escolhas e palavras de que dei conta num determinado momento. Agora vivo outro momento.
Agora vou tratar de continuar a vida -- e dar conta de decisões futuras, em momentos futuros que terei de encarar.
E assim a vida segue, de momento em momento... decisão em decisão...

domingo, 11 de setembro de 2011

Lei de ação e reação

Este texto é meu desabafo. Se você é americanista e acha que os Estados Unidos são o máximo, nem leia. [E nem adianta me criticar. É o meu blog e nele escrevo o que eu quiser. Você é livre para sair desta página imediatamente. Não vá reclamar depois. Eu avisei!]

Há uns 20 anos, ouvi de uma doutora em psicologia, durante uma palestra:

Quando uma criança vem correndo, bate na porta e cai, é muito comum os adultos darem tapas na porta e dizerem: "porta feia, machucou o nenê!" A criança, achando que a porta é a causadora do machucado, levanta, bate na porta e a culpa. Mas o fato é que a porta nada fez contra o bebê. Ele é que veio correndo e bateu na porta, causando o próprio machucado. Claro que não foi intencional, mas diante da repetição desse comportamento adulto, essa criança não criará uma consciência de causalidade, de causa-consequência de seus atos. E a tendência é chegar à vida adulta achando que é sempre uma vítima de portas "plantadas" no seu caminho.

Quantas vezes presenciei esse tipo de atitude em adultos, que encaram os outros como "portas", projetando as causas de todos os seus infortúnios fora de si, esquecendo-se de olhar para trás. Se assim fizessem, veriam que o que muitas vezes achavam que era uma provocação, um ataque era, na verdade, uma reação a algo que eles mesmos haviam feito.
Claro que há gente que gera problemas "gratuitamente", prejudicando os outros, mas não é disso que falo aqui.
Falo de atitudes que geram reações, nem sempre imediatas, e que, não sendo vistas em sua plenitude, causam terríveis reações (e em cadeia).
Lei de ação e reação - natural e imutável - jogue uma bola numa parede. Ela baterá e retornará em sua direção.
Hoje, especialmente, vejo homenagens às vítimas do atentado de 11 de setembro, em Nova York. Os americanos estão sendo apontados como "as maiores vítimas do mundo".
Não consigo engolir isso.
Realmente, as pessoas que estavam naquelas torres, naqueles aviões, morreram de forma terrível.
Porém... pouco se olha para o passado para entender o que está por trás daquele ataque...
Quem armou os terroristas, quem os incentivou, apoiou e deu formação, anos e anos a fio, antes desse atentado, foram os próprios americanos.
Esses mesmos americanos vêm dizimando (ou ajudando a dizimar), há anos, populações ou grupos - em nome de interesses políticos e econômicos. Patrocinaram atos terroristas e golpes de estado que também  vitimaram muita gente inocente.
Espera-se que todos digam "porta feia, islâmicos feios, terroristas malditos...", mas quem foi que instalou essa "porta" no próprio caminho?
Sou contra a violência, contra o terrorismo Foi triste ver tanta dor e sofrimento. De verdade. Mas me nego a ajudar a transformar os americanos em mártires.
Eu me nego a dizer "porta feia" junto com eles e com outros tantos desmemoriados por esse mundo afora.
Eu simplesmente me nego...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A fanfarra e a pátria

O noticiário regional da TV  mostrou os preparativos de algumas escolas para o desfile de 7 de setembro. Bandas, fanfarras, balizas... Voltei no tempo, na época em que eu era pequenina, tocava na fanfarra da escola e me sentia orgulhosa de desfilar, "pela pátria" (apesar de o conceito de pátria, para  mim, ser muito abstrato na época), por minha família e por mim mesma, que me sentia toda importante tocando "caixa" e desfilando pelas ruas do bairro.
Entrei na fanfarra de um jeito meio torto. Havia um teste para tocadores de corneta. Eram muitos os candidatos e o professor fez um teste geral. Peguei uma corneta, tentei tocar, mas fui incapaz de extrair dela uma nota decente. Porém, eu queria tanto fazer parte da fanfarra que achei que poderia aprender, com o tempo, e me tornar uma grande corneteira. No teste geral, fingi que toquei. O som das outras cornetas cobriu os meus FUIIIIIIINS e FIUUUUUUUNS... E assim fui aprovada como corneteira. E também assim consegui  permanecer  - fingindo que tocava - por mais duas aulas, até que o professor percebesse que eu só tirava uns guinchos desafinados da corneta.
Graças aos céus, esse maestro era uma dessas pessoas que amava o que fazia, era compreensivo com as falhas humanas e tinha uma paciência imensa. Não me humilhou nem brigou comigo. Apenas me "demitiu" da fanfarra. Graças aos céus, minha mãe havia chegado mais cedo para me buscar e estava assistindo ao ensaio naquele dia e, ante meu total mutismo e minha extrema vergonha ao ser desmascarada, conversou com ele e pediu que me desse uma nova chance, com outro instrumento. Graças aos céus, também, uma desistência havia feito sobrar uma caixa (mais larga que o repinique) e assim pude fazer um novo teste, no qual me saí muito bem, o que me valeu o direito de permanecer na fanfarra.
(Caramba, eu havia esquecido completamente desse fato, mas o noticiário da TV me fez lembrar de tudo...)
A gente tocava músicas simples, normalmente as mais tradicionais para bandas e fanfarras escolares, aprendia com prazer e sentia que fazia parte de algo grande, maior que a gente, que a escola. Era "pela pátria".
Pátria... hoje te vejo tão maltratada por gente mal intencionada, e explorada por quem recebe votos para defendê-la, mas só defende seus próprios interesses.
Será que se, na época da escola, da fanfarra, a gente tivesse aprendido e entendido melhor o que significa pátria e qual é nosso papel nela, a gente saberia votar melhor e não teria dado tanto poder a tantos "ratos" que hoje roem a pátria? (Talvez nem houvesse tantos "ratos" no planalto...)
Minha expectativa, ao assistir ao noticiário hoje e ver as crianças se preparando para os desfiles, era ver uma turminha mais esclarecida. Quando a maestrina deu o comando para as crianças tocarem, achei que iriam executar alguma peça clássica, ou de algum compositor brasileiro, mas fui surpreendida por uma música de Lady Gaga...
(Não entendo. Por que alguém em sã consciência tocaria uma música americana - e de gosto mais que duvidoso - num desfile comemorativo da Independência do Brasil?).
Com tristeza, comecei a cantarolar uma canção do Cazuza:
"(...) Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Não, não vou te trair..."

(Brasil)

"Feliz Aniversário de Independência", meu Brasil... (Ou, pra combinar com aquela fanfarra, "Happy Independence Day")

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

microconto de uma mente atribulada

Às vezes meus pensamentos "gritam" tanto em minha mente, e se atropelam tão violentamente, que sacudo a cabeça na esperança de derrubá-los. Vã tentativa: eles sempre se seguram em minhas ideias...
Copyright © 2011 Crisna (Célia Cris Silva)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Partidas...

A gente se refere à morte como "partida", descanso", "passagem", entre outros eufemismos... Quem morre não precisa de eufemismos ou metáforas. Nós, os que ficamos, é que precisamos suavizar a dor de nossas perdas.Nesse fim de semana dei adeus a uma "segunda mãe". A mulher que cuidou de mim enquanto minha "primeira mãe" trabalhava. A mulher que desfiava o peixe no meu prato para tirar todas as espinhas. (A primeira vez em que fui comer peixe sem ser preparado por ela, fiquei com uma espinha atravessada na garganta e fui parar no pronto-socorro).
Joaquina era seu nome de batismo. Maria para os amigos. Tia Maria para mim.
Eu fugia de casa e me escondia  na casa dela. Ficava atrás do sofá ou dentro da despensa. Ninguém me tirava de lá. Só ela - e bastava um sorriso. (Tia Maria me ganhou com seu sorriso.)
Era a melhor doceira do bairro. Suas balas tipo alfenim eram famosas. E também as roscas, os bolos...
Assim como os quitutes que preparava, era uma pessoa doce e querida. Miúda, mignon, compacta. Uma alma grande e boa, que morava a apenas duas casas da minha.
Aliás, a família toda daquela casa era especial e me acolheu como parte dela. Tio Alonso (também já no andar de cima), Walter, Wanda. Pessoas presentes em minha infância de uma forma linda. As mais gostosas lembranças que tenho desse período (na "casa da lagartixa", em Santos) estão diretamente ligadas a cada um deles.
Tia Maria partiu, mas deixou um pouco dela em cada um que ficou. Como bem disse Guimarães Rosa, "pessoas boas não morrem, ficam encantadas"...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O universo NERD / GEEK

Já se foi a época em que gostar com intensidade de ficção científica, computação, filmes antigos, Física, Matemática, xadrez e outros quetais era sinônimo de esquisitice. Muitos dos "esquisitos" de ontem são empresários bem sucedidos hoje. Os NERDS, ridicularizados em filmes, músicas e livros, ganharam status, são festejados, têm séries de TV e reality shows. Encantam e inspiram novas gerações.
O mundo evoluiu (ainda bem!).
Hoje, ser NERD (ou GEEK) está na moda.
Assumo que quando eu era adolescente, tinha gostos diferentes das demais jovens da minha idade. Não era nem um pouco apaixonada por Física, Matemática, xadrez, por isso nunca me considerei "nerd" (achava que somente os gênios das exatas recebiam essa denominação). Em compensação, era doida por ficção científica e ufologia.
Adorava Startrek (Jornada nas estrelas), Perdidos no espaço, Viagem ao fundo do mar, Túnel do tempo, Battlestar Galactica, Patrulha estelar, entre outras séries e filmes.
Lia Júlio Verne, H. G. Wells, Isaac Asimov...
Cresci. Desenvolvi outros interesses, segui por alguns caminhos mais convencionais, outros mais alternativos, e nunca deixei de gostar daquele mundo de "esquisitices" (como os mais tradicionais costumavam chamar).
Com o tempo e a maturidade, deixei definitivamente de me importar com a opinião dos outros. Resgatei antigos sonhos, antigos gostos e prazeres da infância e da adolescência.
Coroando essa fase "em busca da felicidade em pequenas coisas", fui premiada com uma participação em uma convenção trekker, em Curitiba, junto com meu grupo de dança. Cada dançarina tinha de se caracterizar de acordo com uma raça alienígena do universo Startrek. Escolhi ser uma andoriana.
Fiz uma pesquisa para conhecer a cultura e a aparência dos andorianos e comecei a fazer minha caracterização. O resultado, vocês podem conferir a seguir:

[Fotos de Mariáh Voltaire, Helaine Marques, Cissa, Joel Strapassion e Bety Damballah]
Andoriana - alienígena do planeta Andor. Suas antenas são também seus ouvidos. Sua pele é azul devido à alta concentração de cobalto em seu planeta natal.

Quando minhas colegas e eu saímos na rua, a caminho do teatro, as pessoas olhavam e se espantavam. Algumas fugiam. Quando me viram, alguns transeuntes exclamaram: Smurfete! ou Avatar! ou, ainda, Shrek! [Vale lembrar que o Shrek é verde].
Um pregador de rua foi nos seguindo até o teatro, inconformado com nossa aparência. Quando chegou lá e se deparou com outros tantos alienígenas e pessoas vestidas como seus personagens favoritos de filmes de ficção, o homem estancou, calou-se, olhou tudo ao redor, deu meia volta e saiu. (Eu adoraria saber o que se passou naquela cabeça naquele instante.)
Fizemos nossa apresentação - elogiadíssima por sinal -, tiramos muuuuuuuitas fotos, conhecemos gente interessante, curiosa, inteligente, pra cima, sem medo de fazer o que gosta...
Ah! E ainda faturei o terceiro lugar no concurso de cosplay!
O melhor de tudo, no entanto, foi estar em contato estreito com meu lado criança e com o lado criança de várias pessoas.
A gente cresce, é verdade, tem responsabilidades, ocupações, problemas... mas não deveria perder o encanto que a infância oferece e a esperança de que em algum lugar, seja dentro ou fora de nós, existe um mundo onde todos são bem-vindos, são diferentes, sim  - e têm  DIREITO DE EXISTIR ASSIM MESMO - e, principalmente, têm o direito de serem o que quiserem ser, como quiserem ser, do jeito que quiserem ser ou que dão conta de ser...  sem serem julgados, condenados e ridicularizados por isso.
Vida longa e próspera!

Já viu ET mais meiga que essa?

Dançando no Cabaret Trekker

Grupo Damballah, ou melhor, Trekker Girls!
Olá! Já não conheço você de algum quadrante?
Não mexa com uma andoriana e uma romulana!
Escrava de Órion, Denobulana, Andoriana, Borg, Cardassiana... Isso é que é diversidade intergalática!
Duas andorianas (a da direita é uma rara andoriana de cabelos negros.)


PARA VER MAIS FOTOS E OS VÍDEOS DESSA CONVENÇÃO STARTREK (agosto de 2011), ACESSE:
www.jornadanasestrelas.com

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Já não se fazem mais Julietas como antigamente...

Quando uma mulher abre os olhos e vê realmente quem está ao seu lado, as consequências podem ser surpreendentes. Com vocês, meu mais novo miniconto...



Neo Giulieta
Copyright © 2011 Célia Cris Silva

Ficou no terraço à espera do amado. Uma noite, duas, três, quatro...

Finalmente, um mês depois, ele apareceu, como se nada tivesse acontecido. Diante do olhar úmido de espanto da moça, ele contou várias mentiras e alegou sérios problemas nos negócios. Ela com certeza deveria compreender e relevar.

Tarde demais. Curada da cegueira que a paixão havia causado, ela viu que ele não era nada do que ela havia idealizado e, com um sorriso maroto, levou-o para o terraço e o empurrou desfiladeiro abaixo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

cooperação X competição

Um homem foi demitido - depois de 20 anos no emprego. Era bom no que fazia, mas foi dispensado porque a empresa buscava outro perfil de funcionário. Mais "agressivo", mais competitivo...
Competitivo... essa palavra me dá arrepios. Quem não supera os demais (doa a quem doer)... está fora.
Lembro-me de uma empresa de Assessoria em Recursos Humanos que foi fazer uma dinâmica com os funcionários da editora em que eu trabalhava. O grupo foi dividido em equipes e todas tinham de executar tarefas. Cada grupo recebeu um instrumento (régua, tesoura, caneta, papel...) . O segredo para realizar todas as tarefas a contento era compartilhar os instrumentos, mas era necessário haver uma equipe vencedora...
O que presenciei me chocou. Colegas contra colegas, quase tirando objetos das mãos uns dos outros para terminarem as tarefas antes e serem vencedores. O ditado: "Farinha pouca, meu pirão primeiro", ilustrava a situação.
Nenhuma equipe venceu. Todas tiveram falhas porque não cooperaram como deveriam.
Para ser cooperativo é preciso ver além de si mesmo. É preciso ver o outro como um parceiro (e não como um inimigo a ser vencido). É desejar uma melhoria coletiva. É chegar junto.
O que ocorreu naquele dia na editora, anos atrás, me mostrou que a competição abafa o lado mais humano dos seres humanos. Infelizmente, isso ocorre diariamente dentro e fora das empresas.
A competição vem ganhando força (estaria ela competindo com a cooperação?) e parece estar sempre acompanhada pelo medo de perder algo ou alguém (o emprego, o cliente para outra empresa...) Se você não está no topo... cuidado para não ser pisoteado! Se está, cuidado também - alguém pode te derrubar...
Nos esportes, algumas competições chegam ao cúmulo de levar à morte (de esportistas,de torcedores...)
Nas escolas, ensinam que a competição é saudável.
Observando o mundo ao meu redor, questiono isso.
A competição é um desejo de ser melhor que o outro (para se destacar), de deixar os demais para trás e se beneficiar de alguma forma (social, moral e/ou financeiramente, por exemplo).
É um dos "alicerces" do capitalismo e alguns acreditam que é uma mola que impulsiona o progresso...
Para mim, é uma mola que nos empurra para dentro de um grande compressor e nos joga num mundo em que dinheiro, status, bens materiais e egos inflados são mais importantes que as pessoas, seus sonhos e seus sentimentos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O sagrado universo da dança

Tenho recebido retornos bastante agradáveis das minhas postagens recentes, entre elas "Dançando com lobas". Quero esclarecer que não sou uma dançarina, alguém que tem a dança como profissão, que investe e dedica boa parte de seu tempo ao aperfeiçoamento, à pesquisa, à divulgação de seu trabalho... Sou uma "mulher dançante", alguém que tem prazer em dançar, "do jeito que for possível"! Dançar me reconecta com minha essência mais íntima e reforça sentimentos de pertencer a algo maior. E, como sou uma grande curiosa, fui buscar no passado algumas informações para entender esse sagrado universo da dança egípcia / oriental / do ventre (DV).

Houve um tempo em que as mulheres se uniam para dançar em homenagem à Deusa-mãe-natureza, ao princípio feminino, para celebrar a fertilidade, a fecundidade... e só dançavam entre mulheres (irmãs na dança, naquele momento sagrado de mover seus corpos), nuas da cintura para cima. Depois da invasão do Egito pelos árabes, aquelas mulheres foram obrigadas a dançar para os homens (muitas foram escravizadas, concubinadas, prostituídas... As que se negavam a dançar e a satisfazê-los eram brutalmente assassinadas.
Muita coisa aconteceu desde então... E a dança do ventre se espalhou pelo mundo.

Assistindo a uma apresentação de DV, anos atrás, ouvi comentários maldosos de uma dançarina a respeito de outras. Não era uma irmã de dança, e sim uma concorrente, uma "rival de dança".
Lembrei de quando fui atrás de uma escola para aprender dança do ventre (há uns 30 anos) e fui rejeitada por não ser magra, por não ter um corpo "dentro dos padrões".
Encontrei, posteriormente, um grupo de mulheres que não estava nos "padrões" e que se uniu e contratou uma professora para dar aulas particulares, no salão de uma delas.
Ao longo da vida, tive a feliz oportunidade de assistir a apresentações de dança do ventre no Brasil, na Grécia, no Marrocos e na Turquia. Fora do Brasil, as dançarinas eram barrigudinhas, rechonchudas, fabulosas! Isso me fez refletir sobre o padrão de beleza - explicita ou subjacentemente - imposto às mulheres. (Isso poderá ser tema de um novo artigo).
A cada nova apresentação a que fui, ultimamente, vi o mesmo padrão estético se impondo: seja nos cabelos (predominantemente longos e lisos), no corpo, nas roupas (algumas até exageradamente reveladoras) competindo entre si para ver quem é a mais bela, a melhor...
Penso que a dança não se resume a isso. Creio que a DV deveria ser uma celebração entre mulheres que se irmanam,  para celebrar algo, como era nos primórdios. Não havia competição entre elas. Por que algumas dançarinas modernas são tão competitivas?
Vi, com tristeza, algumas dançarinas usarem a dança para seduzir homens, transformando-os propositadamente em clientes... Acabaram criando uma fama muito negativa ao redor da DV.
[Graças a dançarinas sérias e competentes, que resgataram o lado luz e o lado arte dessa dança, isso foi se revertendo.]
Ao longo do tempo, fui perdendo o prazer em assistir apresentações que se resumiam a competições veladas e que terminavam em críticas ao corpo ou à roupa dessa ou daquela bailarina. Também perdi o prazer de assistir aulas em algumas "academias de dança" que se preocupavam mais com a aparência das dançarinas do que com sua formação.
Felizmente, há dançarinas, "mulheres dançantes" e grupos espalhados por vários cantos deste mundo, resgatando o que há de mais sagrado na dança. Grupos em que não importa a idade, a estatura, o peso e o tamanho do ventre. Tive a sorte e o privilégio de encontrar uma dessas dançarinas e seu grupo. Juntei-me a ele e danço, mesmo com os joelhos lesionados, pelo simples prazer de dançar (e com que alegria!)
Não vou me profissionalizar e não sou cobrada por isso. Erro os passos e sou lenta para aprender. Meu corpo não executa os movimentos da mesma forma que as mais jovens. Meus joelhos não me permitem fazer determinados passos. Mesmo assim, nunca ouvi uma palavra de crítica, nunca vi um olhar de condenação. A mestra acredita em mim e me incentiva a não desistir. Nas apresentações públicas, divide o palco com as aprendizes, misturada a elas. Quando a música começa, não há hierarquia. São todas irmãs na dança. E quando a música acaba, estão todas conectadas a algo muito maior, felizes por simplesmente estarem ali. Esse é o espírito da dança que eu sonho ver predominando nos palcos por esse mundo afora.
Grupo Damballah, no Festival de Dança de Curitiba (2008). Teatro Ópera de Arame. Da esquerda para a direita: Bety Damballah, eu, Mariáh, Helaine e Maria Helena.


terça-feira, 5 de julho de 2011

A chuva e as queixas

A gente se queixa do frio no inverno. E do calor no verão.
A gente se queixa se chove, se não chove, se o céu fica cinza...
A queixa parece fazer parte do repertório humano.
Mas ando pensando, cá com os meus botões, que "queixar-se" é diferente de "reclamar".
Talvez o queixar-se reflita um descontentamento interno (daí o uso do reflexivo "se": "queixar-se"), um desgosto, algo mais sutil e subjetivo. Nós nos queixamos de algo quando na verdade o que pode estar incomodando é outra coisa que nem sempre conseguimos detectar, perceber (mas que está relacionada com o motivo da queixa).
Talvez o reclamar se refira a coisas mais objetivas e pontuais. Reclamar de um mau atendimento, de um produto com defeito, de uma prestação de serviço mal feita, de algo que causa danos...
Mas e quando o dano é moral? [Quando o que nos afeta vai tão fundo que acaba sendo soterrado embaixo de camadas e mais camadas que nos protegem de sentimentos conflituosos e emoções que podem fugir de controle?]
Quando ouço alguém se queixar da chuva, acho que o que incomoda, no fundo, é a total impotência em controlar o clima, em ter a liberdade de ir e vir afetada, prejudicada, em poder  fazer o que gosta e quer num dia chuvoso (como ficar em casa debaixo do cobertor...).
Quando eu reclamo que estou molhada por causa da chuva, estou reclamando do mal estar causado por estar encharcada, por causa de pés e pernas molhados e frios que me deixam o corpo todo tremendo. É mais físico.
Posso estar enganada... ou não, como diria Caetano.
O fato é que tento a cada dia me queixar menos e "reclamar mais" (unindo a reclamação a alguma atitude ou ação concreta que ajude a resolver os problemas).
As queixas... bem, essas vou ter de resolver entrando em contato com um lado mais profundo de mim mesma, compreendendo a razão de insatisfações, medos, inseguranças, encarando de frente o que tento evitar (porque quando tomo consciência de algo que não vai lá muito bem, preciso tomar uma atitude).
E, quer saber? Não há nada melhor do que um belo dia de chuva pra fazer a gente olhar pra dentro, descobrir o que não anda bem e entender a razão de algumas queixas...

Dia de chuva.
É para a gente rasgar cartas antigas...
Folhear lentamente um livro de poemas...
Não escrever nenhum...
(Mario Quintana)

domingo, 26 de junho de 2011

Sobre meninas e mães

"Quando eu era pequena, ficava agachada no banheiro vendo minha mãe se maquiar. Lembro-me da cor do batom, um vermelho encarnado. Como num ritual, ela fazia um risco de batom em cada bochecha e o espalhava com as pontas dos dedos. Depois passava o batom na boca. Primeiro na parte de baixo, depois na de cima. Olhava para mim e piscava.
Aquela piscada era como uma mensagem, que para mim adquiria diferentes significados - dependedo do dia, das emoções, de diferentes fatores, enfim.
Quando eu sabia que ela ia sair, corria para o banheiro para ver o "ritual da maquiagem".
Esse ritual que eu tinha com ela era na verdade um momento mágico. Eu era espectadora e cúmplice. A mãe ganhava contornos de deusa, de diva. E tão linda!
[Meu Deus, mãe, como você era, é e sempre será linda!]
Eu admirava aquela mulher na frente do espelho, com gestos tão precisos, me introduzindo sutil e lentamente nas artes de ser mulher... Meu maior desejo, naquele momento, era ser como ela.
Às vezes lamento não ter tido uma filha para compartilhar com ela esse ritual (se bem que, pensando bem, na era dos glosses, blushes, primers em que vivemos, talvez ela achasse um risco de batom vermelho nas bochechas algo tremendamente jurássico!).
A maquiagem, em si, não era o mais importante. O ponto alto desse ritual era estar com a mãe, aprender com ela, compartilhar um momento só nosso.
As meninas não se dão conta - enquanto ainda são meninas - do quanto aprendem a "ser" observando as mães. Algumas se espelham e se modelam nelas, construindo em si as mulheres que serão no futuro. Outras se afastam do modelo (Freud explica os porquês).
Esta é a Regina/Misamô/Yeya aos 15 anos.
O fato é que, toda vez que me olho num espelho e vou passar um batom vermelho, a imagem de minha mãe me vem imediatamente. Sorrio por dentro.
Dizem que estou cada vez mais parecida com ela...
Parece que meu desejo foi atendido!"
copyright © 2011 Célia Cris Silva

Este texto é uma homenagem aos 82 anos de Dona Regina (ou Misamô, como eu a chamo) ou Yeya (como os irmãos a chamam), minha mãe.

Ah, mãe, que saudade de quando eu era menina e você era "a minha ídola".  A vida era tão menos complicada, tão menos sofrida.  Sem tantas demandas e preocupações...
Cresci, fui para longe, fiquei independente, mas ainda trago comigo aquela menina que te olhava com olhos de encantamento e admiração.
[Ai, que saudade de ser criança e me aninhar em você!]

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dançando com lobas

Comemorando meu retorno ao Grupo Damballah, posto aqui um pequeno texto que dá uma pálida ideia do que dançar com esse grupo, e estar perto das pessoas que fazem parte dele, significa em minha vida.

 Dançando com lobas

Para Bety Damballah, mestra e amiga

(Cena em preto e branco): Uma mulher anda a esmo pela cidade, aparentemente sem rumo. Seu rosto demonstra tristeza e abatimento. Segue de olhos baixos, passos lentos e cansados. As pessoas passam por ela e não a veem. Para na frente da Catedral e senta-se nos degraus, segurando a cabeça com as mãos.
Começa a ouvir uma música, uma batida forte que faz seu corpo tremer e ativa antigas memórias. Lembra-se de uma fogueira, de lobos ao redor dela...
Levanta a cabeça e olha para os lados. Parece que só ela ouve a música.
Ouve um grito, quase um chamado, um som que a faz se arrepiar e querer gritar junto.
Levanta-se e vai caminhando na direção do som. Está perto e é quase palpável.
Para na frente de um prédio e olha para cima. Há luz no primeiro andar. Há música e risos.
Das amplas janelas, vê cores saindo.
Uma mulher, como que sentindo sua presença, vem até a janela, olha para ela e acena para que suba.
A porta da rua se abre.
Sobe os lances de escada com o coração acelerado, batendo no ritmo do tambor que inunda o estúdio de dança.
(Cena em cores): Mulheres dançam e riem, giram, celebram estarem ali. Celebram a vida e a oportunidade de serem elas mesmas.
A mestra a pega pela mão e a conduz para a frente do espelho.
É a primeira vez que ela se olha e se vê de verdade - em sua essência - depois de tanto tempo sem identidade. É uma loba, assim como as demais mulheres-lobas que dançam ao seu redor.
A música a envolve com sua batida forte. Os pés começam a se mover, os quadris se movem com ritmo, braços e mãos volteiam com graça e leveza nunca antes imaginadas. Um uivo sai de suas entranhas. Estava viva de novo!
Copyright © 2011 Célia Cris Silva

Crédito da Imagem: http://2.bp.blogspot.com/-yGB1_O8it50/TYeNFYK_J-I/AAAAAAAAAUk/TMVEez6bE3E/s1600/lobas.jpg

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um conto sobre economia...

Compartilho com vocês o conto "Economia de guerra", que faz parte da coletânea Tempo de esperar, que pretendo publicar em breve.
Se quiserem compartilhar com alguém, por favor, lembrem-se de citar a autoria (o copyright).
Boa leitura!
Célia Cris

ECONOMIA DE GUERRA

Copyright 2009 © Célia Cris Silva

Estavam casados há dez anos e há oito haviam decidido ter uma conta conjunta, depois que ela se endividou demais e teve o nome incluído na lista de devedores do SPC e do Serasa.
Ele, economista previdente, passou a gerenciar os salários dos dois, as contas, os gastos em geral. O orçamento era discutido com antecedência, os boletos de pagamento eram separados por data e colocados numa pasta vermelha. Os boletos de débito automático eram colocados numa pasta azul.

No início ela até que gostou. Foi conseguindo pagar as dívidas e reconquistou o cartão de crédito.
Com o tempo, porém, começou a achar que o marido exagerava. Se ela quisesse comprar um presente de aniversário, tinha de avisar com pelo menos quatro meses de antecedência, para que o gasto fosse analisado, aprovado e incluído num dos orçamentos do trimestre em questão, para evitar sobrecarga orçamentária, desequilíbrio, perda de rendimentos, etc., etc.

Nem sempre conseguia avisar com tanta antecedência. Levava broncas, ouvia sermão do marido que, zelando pelo orçamento, feria a paz doméstica.
Ela passou a fazer artesanato – a fim de confeccionar presentes para parentes e amigos em datas emergenciais. Como não vendia nada e só tinha gastos com a compra de material, acabava sendo alvo das críticas do marido, que achava desnecessário gastar com presentes para quem quer que fosse.

Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das crianças, Páscoa, Aniversário de casamento eram datas comerciais – justificava ele, que se opunha cada vez mais a qualquer tipo de celebração que envolvesse presentes e gastos.
Aos poucos, tornou-se tirano com o dinheiro, fazendo planos para o futuro, aplicando praticamente todo o dinheiro da família e justificando que era necessário cortar o que quer que fosse supérfluo.

Mas o conceito do que seria supérfluo, para ela, era bem diferente do conceito de supérfluo para ele. Claro que ela concordava em evitar gastos desnecessários. Reaproveitar, reciclar e reutilizar eram os 3 Rs de seu dia-a-dia, mas achava um exagero obrigar a família a economizar em itens que ela considerava básicos (e ele não).
Depois de atravessar uma crise financeira grave, a economia do país começou a se recuperar. Era momento de reaquecer a economia, investir e aproveitar as oportunidades. Com o que haviam poupado, os dois poderiam fazer, com folga, a viagem planejada desde que haviam se casado. Teriam, finalmente, a sonhada lua-de-mel.

Quando trouxe para o marido os prospectos da agência de viagens com a programação e os custos, ele quase enfartou. Disse que ela estava louca. O dinheiro seria guardado para uma era de incertezas: o futuro. Não haveria viagem alguma. Lua-de-mel era uma besteira, já que estavam casados há tanto tempo.
Diante da cara de tristeza e frustração da esposa, ele planejou, para dali a três meses, uma viagem até a casa de parentes no litoral, para relaxar e tomar sol. [O problema é que, dentro de três meses, o verão já teria acabado.]

Na semana seguinte, ela se deparou com uma promoção de calcinhas. Eram da marca que ela usava, de um modelo especial, que não apertavam nem machucavam e, por isso, eram bem mais caras que as demais. Como as suas estavam bastante gastas e com o látex estourado, decidiu que iria aproveitar a oportunidade. Comprou logo meia dúzia e pagou com um cheque à vista, negociando, assim, um desconto extra. Saiu orgulhosa da loja, certa de ter feito uma excelente compra.
Dois dias depois, o marido chegou em casa transtornado, segurando o extrato bancário na mão e exigindo ver o canhoto do talão de cheques.

Como o gasto com as calcinhas não havia sido previsto, (nem comunicado, devido a um esquecimento “freudiano” da esposa) o débito do cheque havia deixado a conta do casal no vermelho.
De nada adiantou ela explicar que a promoção era imperdível, que as calcinhas saíram por 1/3 do preço normal... o marido estava cego de raiva. Gritava, dizia-se traído. Acusou-a de fazer coisas erradas, impensadas... Chamou-a de tola, gastadeira, irresponsável e... fútil.

Fútil???
Depois de anos sendo agredida verbalmente, humilhada, freada, ela se levantou e, branca como uma folha de papel, exigiu a separação das contas no dia seguinte. Ela passaria a administrar o próprio salário dali em diante.

Para ele, foi como se ela tivesse pedido o divórcio.
De fato, três meses depois o casal tinha contas separadas e morava em casas separadas.

Ele dizia, irônico, aos amigos, que ela voltaria correndo, em menos de três meses, falida e endividada, pedindo perdão.
Passaram-se três, seis, nove, doze meses... Ela não faliu.

Questionada por amigas, revelou o segredo para equilibrar as contas.
Aprendera com o ex a ser previdente e a reservar dinheiro para o futuro, mas não deixava de separar uma certa quantia para as emergências mensais ou, simplesmente, permitir-se certos mimos de vez em quando.

Criou um fundo para isso – que chamava carinhosamente de “meu dinheiro das calcinhas”.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O avô do Bartô

Bartolomeu Campos de Queirós... ele não sabe, mas é um dos meus mestres. Ouvi-lo é como ouvir uma música para relaxamento. Com sua voz suave e mansa, transmite sabedoria e calma.
Numa das noites mais frias de Curitiba, Bartô participou de um bate-papo em um projeto cultural.
Nem senti o termpo passar. Tampouco percebi o frio, o vento e a chuva que castigavam a cidade e as pessoas do lado de fora.
Grande mestre Bartolomeu... Diante dele, minhas palavras ficam "pequenas".
Em todos os encontros com escritores, os ouvintes querem saber como foi que a paixão pelos livros começou. Com Bartô não foi diferente.
Bartolomeu falou com paixão - e devoção - do avô. Um homem que o  instigava, que rompia a ordem das coisas e que o incentivava a exercitar ideias e pensamentos, aguçando sua imaginação. O avô Queirós o iniciou nas letras. Escrevia nas paredes da casa todos os acontecimentos da cidade. O menino Queirós copiava as palavras no muro (pois nas paredes da casa somente o avô podia escrever) e assim foi aprendendo a escrever e a ler palavras e gentes.
Rimos e nos emocionamos com a história de sua infância. O avô, depois de se aposentar precocemente - graças a um prêmio de loteria -, ficava o dia todo na janela. Cada transeunte que passava o cumprimentava: "Bom dia, senhor Queirós", e ele respondia: "Tende piedade de nós!".
Foi nesse ambiente que o menino Bartô cresceu: com uma mãe leitora, um avô mais que fascinante e uma casa repleta de palavras pelas paredes.
O homem Bartô viveu muitas coisas. Foi estudar longe e, por causa da saudade que sentia do Brasil, de casa, da comida brasileira, acabou colocando no papel ideias e histórias que lhe vinham à mente.
Depois vieram outras histórias, nascidas de sua constante inquietude perante a natureza e o mundo (o avô fez um bom trabalho instigando o neto a respeito de tudo).
Sorte a nossa, que temos um Bartô pra ler (e ouvir).
Obrigada, senhor Queirós, por ter ajudado a forjar o escritor-menino Queirós (cheio de piedade por nós!).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A felicidade e os peixes fora da água

Desde pequena eu já sabia, instintivamente, que não era como todo mundo. Não via nem sentia as coisas como as demais pessoas. Não tinha ídolos. Não entendia o porquê de precisar competir para ganhar o que quer que fosse, não entendia a razão de ter de celebrar alguns eventos mesmo não vendo sentido neles. [O mundo, muitas vezes, não fazia sentido para mim.] Meu refúgio eram as narrativas orais e escritas com as quais eu tinha contato. Nos livros, personagens distintas viviam em mundos diferentes, e muitas vezes sentiam coisas semelhantes às que eu sentia: medo, angústia, tristeza, alegria, solidão, raiva, ternura, esperança...
Quantas vezes me projetei em protagonistas, tornando delas os meus sentimentos e vice-versa, vivendo com elas emoções e aventuras que me levavam para dentro de mim mesma, para esse universo incrível e assustador que é o EU mais profundo.
Cresci tentando entender qual o sentido da vida e da diversidade no mundo e o sentido da minha vida nesse mundo. Acredito que me tornei uma adulta estável e equilibrada. Tive sorte de nascer com uma boa dose de bom senso, que foi desenvolvido e incentivado pela educação que recebi. Tive bons modelos. Bons mestres. Aprendi a distinguir o certo do errado, o justo do injusto...
Não fiz parte de grupos, turmas ou tribos. Não encontrava pares para as minhas reflexões ou pirações. Aprendi a conviver bem com as pessoas, fiz amigos (poucos e seletos), e por mais que estivesse cercada de gente, sentia-me só. Era o que se chama de um "peixe fora da água".
A vida me possibilitou contato com gentes de mundos e tempos bastante distintos do meu. Isso foi me mostrando que há muitos peixes fora da água também. Cada um, a seu modo, tenta se integrar, se equilibrar, conviver. Alguns não conseguem e se isolam. Outros enlouquecem, literalmente. Há os que adoecem, os que entram em depressão, os que se viciam em algo...
Outro dia, na praça de alimentação de um shopping, fiquei observando pessoas. Tipos variados, gente de diferentes idades, procedências, etnias, credos... indo e vindo, comendo, conversando, buscando algo. "Todos querem a felicidade", pensei. Para uns, a felicidade pode estar num carro, numa roupa de grife, num celular novo, num ipad, num sapato, num brinquedo. Para outros, a felicidade pode estar em um reencontro, no perdão esperado há tempos, em uma reunião de família, em um amor que prometa ser infinito, em filhos.
Conheci pessoas que se sentiam felizes em ter com quem conversar. Outras que viam a felicidade como algo inatingível. "A vida é feita de momentos felizes", disseram alguns. "É impossível ser feliz num mundo tão cheio de injustiças, problemas, preconceitos"...
Tive o privilégio de conhecer gente que passou por muitas perdas, por traumas profundos, que teve de abandonar casa, família, país de origem. Gente que viu amigos e parentes morrerem, que foi vítima de abuso, que sofreu os horrores de uma guerra. Para essas pessoas, em sua grande maioria, a felicidade está em coisas muito simples. Ouvi delas que felicidade é poder estar com quem se ama, é ter saúde, um prato de comida, um teto, um cobertor. Para outros, ainda, felicidade é liberdade.
Entendi que felicidade, para mim, é poder encontrar e conhecer essa diversidade humana e assim ampliar meus horizontes, enxergar além e através de...
Descobri que, juntando os peixes fora da água que conheci ao longo desses anos, acabei encontrando o meu cardume. Isso também me deixou muito feliz.

sábado, 21 de maio de 2011

6 bilhões de outros

Para quem está em São Paulo e/ou vai com certa frequência à cidade, sugiro a video-exposição "6 bilhões de outros", no MASP (até 10 de julho). Para quem não mora em Sampa e não pode ir, sugiro acessar o site e conhecer o projeto. Vale a pena:
http://www.6milliardsdautres.org/
[Há opção de escolha de idiomas]
É um projeto que nos faz olhar para o outro (ou melhor, para 6 bilhões de habitantes do planeta Terra) e perceber que não somos nada diferentes quando se trata de sonhos e projetos. As histórias de vida das pessoas são diferentes, as etnias variam, as características físicas e psicológicas também, as línguas e crenças idem, mas quando se trata de sonhos, desejos, planos... o que vi e ouvi nos depoimentos direciona para algo muito simples: todo ser humano quer ser feliz (independentemente de onde vive, como vive, que língua fala, que crença professa...)
Ri, me emocionei, chorei, me indignei, me encantei e saí do MASP com a cara e a alma lavadas!
Não deixe de acessar / ver.
Segue o release:

Em 2003, depois de A Terra vista do Céu, Yann Arthus-Bertrand com Sybille d’Orgeval e Baptiste Rouget-Luchaire lançaram o projeto "6 Bilhões de Outros". Foram filmadas 5000 entrevistas em 75 países, por 6 diretores que foram buscar os Outros.
Desde um pescador brasileiro a um sapateiro chinês, de um artista alemão a um fazendeiro afegã, todos responderem às mesmas perguntas sobre seus medos, sonhos, problemas, esperanças:

O que você aprendeu dos seus pais?
O que você quer passar para seus filhos?
Por que circunstâncias difíceis você já passou?
O que o amor representa para você?
Quarenta e tantas perguntas que nos ajudam a encontrar o que nos separa, e o que nos une. Estes retratos da humanidade de hoje estão acessíveis no site www.6bilhoesdeoutros.org.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O retorno e a vida, enfim...

Eventos que me acompanharam quando de meu meu retorno ao Brasil: mais de 24h sem dormir, um princípio de incêndio em casa, um irmão internado por conta da intoxicação pela fumaça do princípio de incêndio (é uma história tragicômica, que contarei em outro post), um jet lag que durou alguns dias, internação da mãe no hospital para um tratamento pré-cirúrgico dois dias após minha chegada, um mau jeito "federal" nas costas quando fui levantar a mamãe da cama, a constatação de que minha mãe está definhando a cada dia e está se despedindo de nós...
Não tenho vontade de escrever, nem de falar...
Vocês podem até me questionar: "Mas você não acredita em vida após a morte? Não é espiritualista e crê que a vida não acaba?". Sim, acredito na  vida espiritual, mas acreditar nisso não me torna insensível ao sofrimento de um dos seres humanos que mais amo nessa vida e a constatação de que sou impotente para ajudá-la.
Sinto-me estranhamente vazia. Quando as palavras vêm à tona, são acompanhadas por lágrimas. Difícil conter a emoção quando sua mãe olha pra você e comenta: "Você é parecida com a Célia!" Você respira fundo e diz: "É porque eu sou a Célia, mãe". E ela apenas olha para você com a cara mais doce desse mundo e sorri...

quinta-feira, 5 de maio de 2011

So long, farewell...

Depois de 3 meses de trabalho intenso, frio, calor, vento, chuva, corridas atrás de ônibus e caminhões, novos amigos, aulas de holandês, chás de bebês, nascimentos, passeios, emoções, alegrias, tristezas, sustos, zangas, etc., etc., etc., é chegada a hora de voltar ao Brasil.
Vou com a certeza de que o mundo é imenso e ao mesmo tempo pequeno, que por vezes é maior do que a gente supõe e também pode caber dentro da gente.
Reforcei tremendamente minha tese de que não importa do onde se é e em que cultura se vive, ou a que gênero, credo e classe social a pessoa pertença, o ser humano quer mesmo é ser feliz (o que varia é o que cada um acredita que é preciso para ser feliz)!
Não sou a mesma Célia que chegou. Impossível sair a mesma de tal experiência. Impossível não questionar o que se vê e ouve sobre a glamurosa vida "nas Oropa".
Essa terra, como todas as demais, tem o lado A e o lado B:
Há sonhos e há pesadelos.
Há cultura e há ignorância.
Há corrupção e há ética.
Há tolerância e há preconceito.
Há diversidade e há racismo.
Há coisas muito bacanas e há coisas terríveis.
Há gente muito boa e há gente que nem vale a pena saber que existe!
...

Posto aqui as últimas fotos que fiz na Europa, em Antuérpia, terra dos diamantes e também das rendas.
Obrigada por me acompanhar em mais essa aventura.
Um abração!


Catedral de Antuérpia

Detalhe da entrada da catedral


Esta rua é o point da moçada endinheirada e descolada.
Um café mais que charmoso numa ruelinha...

É preciso mostrar com desenhos que não se deve fazer xixi nos locais públicos. Isso também é Europa!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Já está chegando a hora de ir...

Última semana nos Países Baixos.
Conheci, neste país, pessoas de mundos tão diferentes do meu e que, ao mesmo tempo, parecem tão próximas! Pessoas cujos sonhos se irmanam com os meus: SER FELIZ!!!
Aprendi que na vida a gente precisa olhar para além da realidade da gente. Olhar para além da janela, para além do muro, para além das fronteiras...
Enquanto preparo minhas coisas para o retorno, Marta e eu tentamos finalizar mais um livro. Trabalho de doido...
Que experiência única! Que coisa mais maluca e incrível! Que loucura... loucura... loucura... e bênção!
Sentimentos se confundem: alegria por retornar e tristeza por partir. Deixo aqui uma parte de mim. Levo comigo uma parte deles. Pareço sonhar.
Creio que só acordarei daqui a algum tempo. Por ora, penso que continuo sonhando...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Corvos...

Não vejo pombos da janela. Vejo gaivotas, pegas (leia-se pêgas) e corvos. Aliás, ultimamente os corvos estão abundando por aqui. Lembro-me constantemente do poema "The raven", de Edgar Allan Poe (...Lenore... Never more).
Por duas madrugadas seguidas fui acordada pelos "gritos" enlouquecidos de gaivotas e corvos se atacando na frente do prédio. Eles disputavam nacos de pão, tiras de plástico, tecido, papel (para fazer ninhos). Os corvos são muito abusados e estouram os sacos de lixo deixados nas lixeiras abertas. Depois de muitos CRÁÁÁÁÁÁÁS, CRÉÉÉÉÉÉÉÉS, CRIIIIIIIIIIIIIIIIIIS, AHÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁS, GUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIS...
(esses me pareceram ser os sons da briga), um ruidoso farfalhar de asas avisava que cada ave tinha voltado para o seu canto.
Pode ser impressão minha, mas acho que os corvos andam me seguindo. Confiram a sequência de fotos e me digam se estou sofrendo ou não de algum tipo de paranoia corvística ou se há realmente uma dupla de corvos paparazzi me seguindo...
Sábado, 23 de abril, dois corvos rondam a frente do prédio, numa atitude muito suspeita...
Domingo, 24 de abril, um corvo me observa no dique de Oosterschelde (seria um dos que rondavam o prédio? Ou teria enviado um cúmplice?)
Outro corvo se aproxima e fica à espreita...
Vejam quem aparece na foto comigo...
Estarei eu paranóica ou realmente anuncia-se uma versão moderna de "Os pássaros", estrelada por corvos?
Estariam eles apenas interessados em meus chocolates belgas?
Estariam eles interessados nos meus óculos (que lembram um pouco as asas de um corvo)?
Seriam eles pássaros-robôs enviados pela polícia holandesa para me espionar e verificar se não sou uma imigrante ilegal?
Estaria eu pirando por conta do sol de 28 graus na cabeça?
Estaria eu pirando por comer tanto chocolate?
Estaria eu simplesmente pirando porque já nasci com os genes pra ser pirada? ;-)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Diques e barragens

Há um ditado popular por aqui: "Deus criou o mundo e os holandeses criaram a Holanda". A parte costeira dos Países Baixos está 3 metros abaixo do nível do mar. À medida que se vai para o interior, as coisas mudam. Não me lembro da porcentagem de terras que antes pertenciam ao Mar do Norte e que hoje fazem parte das Nederlands, mas sei que é grande.
Em 1953 houve uma grande inundação que vitimou milhares de pessoas. Foi um susto e um trauma. Desde então, os holandeses se esmeraram em desenvolver tecnologias para a contenção de inundações, enchentes, alagamentos. Os diques da Holanda são referência mundial e FUNCIONAM! Uma maravilha da engenharia hidráulica. Visitei os diques de Oosterschelde e fiquei maravilhada. As comportas estavam abertas e a água fluía calmamente. A costa holandesa possui agrupamentos de diques nos pontos mais estratégicos e "frágeis" (onde as águas do Mar do Norte poderiam causar mais danos).
Além dos diques, há as barragens e as dunas. Na província de Zeeland (terra do mar) seguimos por uma estrada à beira-mar; porém, no lugar de ver uma praia, vimos mastros de barcos acima da gente. O que nos separava do mar era um "morrinho" artificial.
Marta me contou que engenheiros holandeses estiveram no Brasil para levar a tecnologia de construção de diques e barragens para resolver os problemas das enchentes. Parece que o projeto não saiu do papel. Não sei o que deu errado, mas vou investigar. [Tomara que não tenha sido falta de vontade política, corrupção, etc., etc.]
Este é o primeiro agrupamento de comportas (há mais 3) do Dique de Oosterschelde. Cada comporta tem 50 metros de altura . Quando as águas do mar do Norte sobem, as comportas se fecham automaticamente.
Há um viaduto que ladeia as comportas. As pessoas caminham, andam de bicicleta, andam de patins por ali.
Assista ao vídeo e repare no barulho das águas passando pelas comportas abertas. 


domingo, 24 de abril de 2011

Vamos a la playa, oh oh oh oh oh...

Quem disse que na Holanda não existem praias?
Há praias, sim, e muito concorridas! Conheci duas na região de Zeeland (veja o post "breve aula de geografia"). Basta sair um solzinho para o pessoal largar tudo e se mandar pro litoral. O vento pode até ser gelado, mas não há problema, pois é só levar um cobertorzinho e ficar sentado numa cadeira, lagarteando ao sol. [Há quem leve barracas de camping.] Banho de mar, só para os valentes. A água é muito gelada (mergulhei meus pezinhos no mar do Norte mas saí rapidinho, Brrrrrrrr!).

Esta é uma das praias do Parque Oosterschelde. Repare que há um criadouro de ostras ao fundo.
A areia é tão fofa que a gente afunda pra valer. Parece até areia movediça...
Legenda desta foto: "Vai logo, Martita, estou congelando nessa água!"
Esta é a Praia do mar do Norte (Noordzeestrand). É um dos "points" da moçada. O vento estava bem gelado, mas  não tirou o ânimo do pessoal. Ah! As pipas aqui são diferentes e se parecem com pequeninos paraquedas (pára-quedas). No lugar de guardassóis (guarda-sóis), utilizam-se barracas de camping. [Não sei mais escrever, depois da reforma/deforma ortográfica]
Noordzeestrand (Praia do mar do Norte), de outro ângulo. O pessoal adora praticar windsurf, andar de caiaque, lancha, jet-ski, veleiro...  
Desse lado da praia não tinha quase ninguém.
Uma coisa que me chamou a atenção foi o cheiro do mar. É o mesmo que sinto quando estou na minha terra natal  (Santos). Ai, que saudade!


sábado, 23 de abril de 2011

Páscoa é renovação

O clima de Páscoa aqui é diferente. Não há aquele apelo comercial de comprar ovos de chocolate e de presentear, o que acho muito bom. [Mas também não há um clima muito religioso no ar.]
Como as celebrações estão dentro de cada pessoa em diferentes níveis e graus, esta semana ando meditativa...
Observando as árvores na frente do prédio, me dei conta de que a renovação é uma constante na natureza, independentemente de datas. As estações se sucedem e a natureza faz o que tem de fazer: acata as leis universais que regem o cosmo.
Acho que a gente deveria fazer a mesma coisa.
Deveríamos renovar nossos projetos, ressucitar sonhos que abandonamos e reciclar energias.
Independentemente de credo e data, desejo a todos os amigos, familiares e seguidores força para renovar seus desejos e torná-los realidade.
E deixo duas fotos das árvores da frente do prédio da Marta e do João: uma tirada em fevereiro de 2011 e outra tirada em abril do mesmo ano (com 2 meses de intervalo), pra gente se lembrar de que a renovação e o renascer fazem parte da natureza. Fazem parte da vida!
Beijos a todos.
Foto tirada em fevereiro de 2011


Foto tirada em abril de 2011


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ainda a unha encravada

Lembram-se daquela minha unha encravada/inflamada que teria de ser tratada por um médico? A maratona para conseguir uma consulta foi tamanha que acabei eu mesma tentando resolver o problema. Duas semanas depois da trágica tentativa, consegui finalmente ir a um médico de família e ele receitou uma pomada. Também me encaminhou para uma especialista - podologiste - para tratar da unha. Duas semanas depois, finalmente, cheguei no consultório da moça. Ela quase não falava inglês. Entreguei o prontuário que o médico havia me dado e ela me sinalizou que sentasse numa cadeira. Pegou um aparelho que lixa e faz polimento e tratou a unha do dedão do pé direito. Terminou de fazer o serviço e olhou para mim. Sinalizei a ela que a unha do dedão do pé esquerdo também estava com problemas. Ela lixou com o aparelho. Terminou, tirou as luvas e voltou para a cadeirinha dela. Expliquei que precisava de tratamento em todas as unhas, que meu pé necessitava de um "trato". Ela explicou (pelo que pude entender) que só poderia tratar as unhas dos dedões pois o médico só havia indicado o tratamento dessas unhas. "Mas e os outros dedos?", perguntei atônita. "Você tem de agendar um horário com uma pedicure", ela respondeu. "Mas você não é podóloga, não trata das unhas todas?". "Sim, sou podóloga e meu trabalho é tratar problemas nos pés de forma terapêutica, e não estética, e o seu prontuário só fala numa unha, a do pé direito, e eu já tratei das duas unhas, a direita e a esquerda".
Cobrou 10 euros por ter "tratado/lixado" as duas unhas e abriu a porta para eu sair, pois já tinha outra paciente aguardando (as consultas aqui são super-rápidas.)
Lamentei não saber falar holandês para exigir meus direitos de consumidora! Foi a gota que faltava para transbordar o meu copo de "saco cheio". Senti-me explorada, aviltada. Fiquei lívida, depois roxa, vermelha, com raiva, com calor, com frio, tudo ao mesmo tempo.
Saí do consultório tão desorientada que até errei o caminho de volta. Que vontade de gritar! Se fosse só um caso isolado eu teria rido, mas essa aventura com a unha encravada, a coisa mais simples e banal do mundo, demorou demais e me deu mais dor de cabeça e despesa do que uma obturação no dente!
A primeira providência a tomar assim que voltar para o Brasil é agendar um horário com a minha podóloga, que me trata há anos e tem uma cadeira superconfortável - com massagem nas costas!!! Como diz a Marta, o Brasil é o paraíso nesse aspecto (e em vários outros). Lá, manicures, pedicures, podólogas, cabeleireiras atendem a gente superbem e nos mimam, pois desejam conquistar e fidelizar os clientes.
Percebi que aqui vários profissionais tratam a gente (os estrangeiros) com profissionalismo sim, que se traduz em distanciamento, frieza e uma certa dose de "vá-te catar"... HUMPF!