segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Reflexões sobre a arte de escrever

Ainda impactada pela intensa e calorosa recepção que tive na EMEF Elias Shammass, continuo pensando no que significa escrever literatura e nos motivos que me levaram a deixar para trás uma carreira de mais de 20 anos como editora para realizar o sonho de ser escritora profissional  (e arcar com as consequências dessa decisão).
"Você tem mais sorte do que juízo", disse uma amiga, certa vez. Ela tem razão.
Quando concluí meu primeiro original, há mais de 30 anos, (pelo menos o que eu considerava um texto digno de ser impresso), nunca poderia imaginar o impacto dele na vida de alguém a não ser na minha vidinha adolescente. Deixei o livro na gaveta, aguardando uma mente aberta que o publicasse. Enquanto aguardava, caminhei pela vida e pelo mundo, assimilando gentes e histórias. Enquanto fui editora, lancei livros dos outros, abri portas para os outros, projetei escritores e ilustradores. Sempre usei de franqueza, apesar de algumas pessoas preferirem não ter de encarar a verdade. Ganhei amigos preciosos e inimigos figadais. (Recebi até ameaças.) Tive de engolir sapos, consertar problemas que outros criavam, lidar com egos complicados, com gente complicada, com gente bacana, com gente fora dos padrões (como eu), com gente sonhadora (que nem eu!), gente de personalidade forte (de novo, como eu!), briguei pelo que achava justo e certo (mas nem sempre acertei).
Fui demitida, mais de uma vez. Tive meu nome apagado das páginas de crédito dos livros e das coleções que idealizei e editei, de vídeos, de impressos, da vida das empresas. Com o tempo, nada restou de minha passagem. A invisibilidade do trabalho editorial sempre incomodou, pois não é justa. No entanto, percebi que essa invisibilidade não é comum apenas no meio editorial. Ela também existe em outras áreas.
Assistindo a um vídeo produzido por uma das editoras nas quais trabalhei, vi que antigos diretores foram cortados (entre eles, eu!), secretários e secretárias de educação foram substituídos e, na impossibilidade de se retirar a pessoa, a legenda denunciava: EX-SECRETÁRIA... EX-SECRETÁRIO... (O meio político e o educacional estão cheios de seres invisíveis, mas isso é assunto pra outra postagem...)
Sorri aliviada ao ver e ouvir o escritor dos livros, com sua fala de sábio grego, explicando o valor da literatura para as pessoas.
Foi bom vê-lo e revê-lo, constatando que não existe ex-escritor, ex-autor. Por mais que o escritor se rebele contra a editora, o editor ou os "poderosos" que decidem quem fica e quem vai, por mais que cancele um contrato, sua obra é sua, saiu de suas entranhas e é protegida por lei. Ninguém pode desvincular seu nome e sua pessoa daquela obra.
Voltei no tempo, quando finalmente consegui publicar Ana e Ana, quando ele foi transformado em animação pelo Canal Futura, quando foi selecionado para um programa de leitura no México (que não vingou até hoje não sei por quê), quando foi recomendado pelo Unicef e pela Unesco como referência positiva para a construção de uma identidade afrobrasileira. [E pensar que muitos editores não quiseram publicar esse livro!]
Constatei que, apesar de não ter filhos, meus livros são os "filhos" que deixarei no mundo. Sempre carregarão meu nome na capa e minha ideias e pensamentos em suas páginas (a alma do livro).
Curiosamente, me dei conta de que há um lado bom na invisibilidade e aprendi uma lição sobre ela: as sementes que plantei e as ideias que lancei continuam movendo pessoas, mesmo que elas não tenham a menor noção de quem eu sou ou o que fiz, pois quando uma ideia é boa, ela entra nas pessoas, germina, cresce e transborda e assim vai contagiando mais e mais gente.
Muitas de minhas melhores ideias estão em livros que não trazem meu nome na capa. Mas carregam meu pensamento na concepção, nas entrelinhas, na estrutura...
E como os livros têm a capacidade de mudar as pessoas, como dizia Quintana, continuo, de um jeito muito sutil, invisível e ameno, a colaborar de alguma forma.
Porém é infinitamente melhor contribuir para essa mudança mostrando a própria cara, sorrindo, tendo contato com as pessoas -- como aconteceu com a "galera do Elias" --, para que os leitores tenham a certeza de que um(a) escritor(a) não é um ser mágico, ou alguém que já morreu , muito menos um semideus. Um(a) escritor(a) é letra viva, palavra viva, sentimento vivo, cuja motivação é ser lido(a) para poder continuar existindo e espalhando palavras que curam, transformam e fazem pensar.
Pablo Neruda, um de meus poetas preferidos, resume isso brilhantemente numa frase: Meu dever é viver, morrer, viver...
Obrigada a todos os meus leitores e leitoras por me manterem VIVA!
Um beijo no coração.

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