quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Como executar uma tarefa "difícil"

Antes de mais nada, a definição de "difícil" pode variar demais. O que é um sofrimento para uns pode ser a alegria de outros.
Para mim, fazer exercícios é algo complicado.
Imaginem uma mulher sedentária, "cozida na preguiça" (como diz minha amiga Sueli), focada em atividades "cerebrais", que não vê sentido em fazer atividade física alguma que não seja dançar por puro prazer.
Corrigindo: não via sentido.
Depois de dois tombos em um intervalo de 6 meses, que resultaram em lesões na coluna, um dedo de pé quebrado e um ombro deslocado, esta sedentária (eu mesma!) teve de capitular e assumir que estava fora de prumo, acima do peso saudável, sem musculatura e cheia de dores. Muitas dores.
Fui para a academia de ginástica e fiz matrícula sem nem olhar o espaço. "Ou vai ou racha", pensei.
Como já estava rachada, trincada, quebrada, a primeira alternativa parecia mais amena e plausível.
Os primeiros minutos foram puro estranhamento. Nada ali era familiar.
Olhei tudo desconfiada, sem ânimo.
Fechei os olhos e imaginei um futuro sem tombos, e a perspectiva de acordar sem dor nas costas me fez até sorrir. Comecei a me animar. "Só por hoje", pensei.
Fiz as séries que o instrutor recomendou e, no final da sessão de malhação, fui colocada numa bicicleta ergométrica (ainda não consigo caminhar na esteira por conta da fratura no dedo).
Na minha frente, uma TV - sem som - ligada em um programa qualquer e um espelho gigantesco, no qual vi uma mulher abatida, triste e cansada. Nos alto-falantes, uma música estridente e irritante.
"30 minutos pedalando", sorriu o animado instrutor.
"Ai, que tortura!", foi meu primeiro pensamento. Mas pensar assim não ajuda nada... Para minha sorte, tenho uma imaginação fértil.
Fechei os olhos novamente, respirei fundo e, talvez embalada pelo vento de um ventilador no alto da parede, me vi pedalando em uma estrada, o vento batendo no rosto (eu sei que é clichê, mas foi assim mesmo!). Não sei onde estava. Uma fazenda? Uma floresta? Um recanto na Escócia? A paisagem ia mudando. Casas, pastos, vacas, cabras, ovelhas, dinossauros, montanhas. Tudo era possível. Um lago surgiu numa curva. Cisnes, patos, marrecos e sereias nadavam junto com o "monstro" do lago Ness, que acenou a barbatana para mim e piscou.
Pássaros revoavam num céu púrpura. Fadas faziam loopings ao meu redor. Uma bruxa passou num rasante em sua Nimbus 2000. Quase colidiu com um urubu!
Comecei a sorrir. Quase a rir. Não estava mais em uma academia de ginástica. Estava no meu mundo, um mundo louco e talvez "sem sentido" para muita gente, pedalando uma bicicleta invisível.
Pois é... O que faz sentido para uns pode não fazer sentido para outros.
Os 30 minutos acabaram muito depressa e voltei para a academia-realidade. Olhei para o espelho e vi uma mulher-menina com vontade de pedir uma bicicleta no aniversário. Uma cara cansada, sim, mas alegre.
Agora não vejo a hora de voltar lá para pedalar-voar em  uma bicicleta feita de nuvens.
Depois vou pedalar uma bicicleta subaquática no rio Amazonas, enquanto vejo botos e pirarucus.
Depois vou pedalar em Marte.
E depois vou pra onde eu quiser e a imaginação me levar!

Imagem adaptada do Clip-Art






quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Natal Animado 2012



Acompanhe os vídeos do projeto palavrAnimada no blog:
http://projetopalavranimada.blogspot.com.br/

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Uma mãe, muitas mães

Quem tem ou teve um parente idoso, que por conta de uma degeneração das células cerebrais, doença de Alzheimer ou outra que cause declínio das funções mentais / intelectuais, vai se identificar.
[Ai, que nó na garganta...]

"Não se viam há alguns anos. Em casa, a mãe não reconheceu o apartamento, girou pelo banheiro procurando pertences pessoais (que concluiu terem sido roubados) olhou para a filha e perguntou: "Qual é o seu nome?". 
Pega de surpresa, a filha ficou um pouco aflita, sem saber o que fazer. Diante da confusão da mãe, entristeceu. 
Não era mais filha, e sim uma estranha. A mãe que conhecia não era a mesma.
Então se deu conta de que tivera várias mães ao longo da vida. A que a gerou e deu à luz; a que a alimentou, criou e educou; a que a filha achava chata porque vivia empatando suas paqueras e liberdade; a que pegava no seu pé pra estudar e ter uma carreira; a mãe que cozinhava como ninguém; a que a ia buscar na escola e, na volta, mudava o caminho, pelo meio de um bosque, pra ter um gosto de aventura; a que a abraçava quando ela tinha medo; a que a consolava quando estava triste; a que contava histórias... Todas aquelas mães estavam ali, em algum lugar daquela encurvada e emagrecida senhora. A filha se deu conta de que amava cada uma delas de um jeito, e todas juntas de um jeito único. Como se um exército de mães de repente se condensasse um uma única pessoa, que mantinha viva a esperança de resgatá-las. Abraçou a mãe (na verdade, todas elas) pediu desculpas pela pouca paciência. Chorou. Respirou fundo... Sabia que teria, pela frente, "uma última mãe" por conhecer."  (Copyright Célia Cris Silva, 2012)

terça-feira, 24 de julho de 2012

Dia do escritor

Dia 25 de julho é o dia do escritor / autor.
Quero agradecer aqui aos meus leitores, que me validam como escritora. Sempre digo que um escritor nasce quando o que ele escreve é lido.
[De nada adianta um livro publicado e trancado ou fechado numa prateleira.]
Cada vez que me leem, eu renasço. E assim me fortaleço escritora.
Aos amigos, familiares e leitores o meu muito obrigada.
Nossa jornada autoral está apenas começando...
Tem sido muita luta, muita semeadura e muita espera pela colheita... Mas ela virá, com certeza!!!
Obrigada!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Recado da chuva...

"Amigos são anjos na terra..." Não me lembro de quem é a frase, mas ela é verdadeiríssima!
Minha amiga [quase irmã], Lúcia Munis, é professora e uma grande fã do meu trabalho.
Foi graças a ela que vivi um dos momentos mais marcantes como escritora, no dia em que visitei a escola em que ela fundou uma sala e um clube de leitura.
Estive com Lucinha há poucos dias e ouvi um relato que me emocionou.
Ela programou a leitura do livro "Recado da chuva" (Editora Vida & Consciência) com turmas de 3o ano. Mas a leitura só aconteceria num dia de chuva. A classe acompanhou a previsão do tempo durante dias até que, finalmente, a previsão anunciou uma terça-feira chuvosa.
São Pedro, camarada, seguiu a programação e a chuva desabou sobre a cidade de São Paulo.
 Lucinha providenciou bolinhos de chuva, chá, e foi para a escola.
As crianças estavam em polvorosa. Conversaram sobre a chuva, foram até a janela para sentir a chuva, mas olhares e gestos pediam história.
Livro em mãos, Lucinha começou a leitura.
Professora e alunos se emocionaram. [Imaginem, então, a escritora, enquanto ouvia a narrativa!]
As crianças comeram os bolinhos e falaram sobre os sentimentos que a chuva faz aflorar.
Depois foi a vez dos professores. Dupla emoção!
Resultado: Agora o livro tem fila de espera para ser lido, tanto por alunos quanto por professores!!!
O que posso dizer a essa criatura, que divulga a literatura e o meu trabalho, senão OBRIGADA?
É por conta de professoras como ela que pessoas como eu podem se dizer escritoras.
É por conta de professoras como ela que acredito no poder da mudança.
É por conta de professoras como ela que continuo escrevendo.
É por conta de professoras como Lucinha que tenho fé na educação...

OBRIGADA!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Neil Postman, Platão, a tecnologia e a escrita

Li recentemente um livro de Neil Postman - O desaparecimento da infância - que achei genial. O autor lançou mais de 20 livros analisando a relação entre tecnologia, cultura, educação e infância. (É uma pena que ele já tenha partido para o andar de cima). Gostei muito de seu discernimento e  procurei mais textos e informações sobre Postman. Acabei encontrando ensaios e artigos de outros autores sobre ele, também interessantes. Posto aqui uma análise de Fernando Teófilo sobre o livro Technopoly, de Neil Postman, que me remeteu à forma como os estudantes se relacionam com a escrita na era digital - nas redes sociais, no Twitter, via SMS e outros quetais. Tem a ver com as ideologias que são passadas por meio do que vemos e lemos. O que destaquei em negrito é justamente a parte que mais fez eco com o que penso...


"Em Technopoly Postman descreve a forma como a tecnologia se tem relacionado com a cultura, desde a era da ferramenta à tecnopolia, e avança com a terapia que julga ser a mais apropriada para contrariarmos o domínio tecnológico sobre a cultura.
No início do livro recuamos à antiguidade clássica para bebermos um pouco da sapiência dos diálogos de Sócrates, descritos por Platão no Fedro. Apresenta-nos a lenda do rei Tamuz e do seu encontro com o deus das invenções Thoth. Esta história mostra-nos que o dilema provocado hoje pela tecnologia não é de agora. Questionar os benefícios ou os malefícios da tecnologia é já actividade antiga.

'Um dia o rei Tamuz recebeu o deus Thoth, inventor, entre muitas outras coisas, da escrita.
Segundo o deus Thoth cada uma das suas invenções, particularmente a escrita, iriam tornar Tamuz um rei reconhecido e indispensável para o seu povo. No entanto, o rei quis saber da utilidade de cada uma das invenções, por exemplo, da escrita. Para Thoth a escrita era a maior façanha de todas, aquela que iria melhorar tanto a sabedoria como a memória do povo. Tamuz retorquiu que o inventor de uma arte não pode ser o melhor a ajuizar sobre o bem ou mal que esta provocará a quantos a aplicarem.'

Muitas vezes em vez do bem que se anuncia é o mal que chega. Para Tamuz a escrita é disso um exemplo: aqueles que a utilizarem deixarão de exercitar a memória e tornar-se-ão esquecidos, pois confiam que a escrita lhes trará á lembrança as coisas. Esta confiança nos sinais gráficos fá-los perder a confiança nos seus próprios recursos. A escrita serve assim para rememorar e não para desenvolver a memória. É ilusória a sabedoria que se espera. Os alunos terão fama de a possuirem mas isso não corresponde à verdade pois receberão uma quantidade de informação sem a instrução adequada. Considerar-se-ão muito conhecedores mas serão bastante ignorantes. Estão cheios do conceito de sabedoria mas não de verdadeira sabedoria.
Eis como a tecnologia que se anuncia como beneficente afinal prejudica. Este é também um ponto de partida utilizado por Postman para uma crítica da influência da tecnologia sobre as culturas onde são recebidas. (...)


Segundo Postman a tecnologia efectua o seu domínio de duas formas, uma clara e outra menos perceptível porque para ele há tecnologias que são visíveis e outras invisíveis. As visíveis são aquelas que todos consideramos como tecnologia.
Exemplifica com a televisão, o automóvel e o computador.  As invisíveis não são tecnologias com forma física, não têm um mecanismo técnico observável, são todavia técnicas e métodos que de uma forma sistemática e repetida condicionam a forma como pensamos o mundo que nos rodeia. (...)"

(Para ler mais, é só seguir o link abaixo)
Fonte: http://www.bocc.ubi.pt/pag/teofilo-fernando-Postman.pdf

domingo, 10 de junho de 2012

A matemática da amizade

Compartilho com vocês o texto que escrevi para o portal Vida & Consciência, sobre amizade...


A matemática da amizade  

Ter amigos é maravilhoso, mas saber ser amigo também é importante
Por Célia Cris Silva



Há muitos anos, quando ainda era criança, ouvi uma história de origem russa que dizia o seguinte:

"Um coveiro, que estava acompanhando um grupo de pessoas no cemitério da cidade, começou a apontar os túmulos e a falar:
- Aqui jaz Sergei Serkikoff. Nasceu em 1830 e morreu em 1890. Viveu 25 anos.
- Ali jaz Svetlana Korolenko. Nasceu em 1920 e morreu em 1990. Viveu 50 anos.
- Ali jaz Anatole Lermontov. Nasceu em 1946 e morreu em 2008. Viveu 38 anos...

Antes que ele continuasse, um dos visitantes o interrompeu:
- Mas essas contas que você fez estão erradas. Essas pessoas viveram muito mais do que você está dizendo.

O coveiro, então, respondeu:
- É que o ser humano só vive realmente durante o tempo em que tem amigos."

Nunca mais consegui esquecer essa "matemática da amizade". Na época em que ouvi a história, achei-a poética e delicada, mas ainda não tinha repertório suficiente para compreender a sua profundidade.

Hoje entendo que a presença de amigos na vida de alguém pode ser um dos fatores determinantes entre morrer - efetiva ou simbolicamente, por meio do isolamento, da solidão, da apartação - e viver.

Ter amigos é maravilhoso, mas saber ser amigo também é importante. Amizade é parceria, uma "rua de mão dupla". A gente adora ser ouvido, mas será que sabe ouvir? A gente adora ser cuidado, mas será que sabe cuidar? A gente adora que se importem com a gente, mas será que se importa com os outros?

Num período em que a amizade parece estar sendo medida por quantidade, em que se deseja ter "um milhão de amigos" em determinadas redes sociais, será que somos amigos daquela pessoa que está a cinquenta metros da gente, esperando atenção, um gesto, uma palavra?

Em todas as culturas, tempos e línguas há frases sobre amizade, exaltando sua importância, falando de sua necessidade na vida das pessoas. Dizem que amigos são parentes que a gente escolhe, que se conhece o amigo na necessidade, que amigos são anjos, que amigos são partes de nós que um dia se desprenderam e que reencontramos, que amizades verdadeiras nunca acabam, que a amizade é como uma planta que necessita ser cultivada... O filósofo Cícero chegou a dizer que "um amigo é como se fosse um segundo eu".

Eu me pergunto constantemente: "Como é que estou cuidando dos meus amigos?", "Que tipo de amiga tenho sido?" [Presente? Ausente? Sufocante? Alguém-com-quem-se-pode-contar? Carinhosa? Chata-mas-querida? Crítica? Mãezona? Especial? Possessiva? Boa-ouvinte? Egoísta-do-tipo-entendo-a-sua-dor-mas-a-minha-é-bem-maior?...]

É bom "discutir a relação" também com os amigos, para evitar que possíveis mágoas se instalem e criem raízes. Muitas vezes a gente nem percebe, mas uma palavra mal colocada, ou a falta de uma palavra, a falta de demonstrar que a gente se importa, a falta de ouvir o outro são fatores que podem afastar as pessoas. Não que a amizade fosse superficial, mas era, provavelmente, unilateral (uma rua de mão única).

Hoje, quando lembro daquela história russa, fico imaginando o que aquele coveiro poderia dizer se visse minha lápide, após minha partida. De uma coisa eu sei: cada momento com meus amigos, desde que me conheço por gente, tem sido precioso e intenso, com risos multiplicados, tristezas subtraídas, alegrias divididas e realizações somadas. Espero conseguir manter essa matemática por muito tempo, ainda...

Clique aqui para acessar o portal Vida & Consciência